quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Um fim anunciado no início

    O encerramento das atividades da fábrica de calçados da Doublexx em Horizontina é o desfecho infelizmente previsto desde o anúncio recheado de pompa e garganteio por parte do governo municipal em fevereiro de 2010. À época ao fazer o alerta e discordar da forma com que o governo incentiva quem vem explorar e não apóia quem investe de fato no município, cheguei a ser criticado de que estava sendo contra o desenvolvimento. Hoje desafio alguém a sustentar argumento neste sentido.
    Sem pagar salários, sem recolher integralmente o Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço (FGTS), e sem dar explicações, a direção da empresa simplesmente anuncia que não pode manter as atividades, e que precisa capitalizar-se. Deixa mais de 100 trabalhadoras desempregadas e desiludidas pela promessa de emprego fixo, sonho que milhões de brasileiros puderam realizar na última década. Não fez nada daquilo que pregou-se no passado.
   Toda a empresa tem o direito de encerrar suas atividades total ou parcialmente sempre que seus sócios entenderem que tais negócios não atendem mais suas expectativas de lucro. Entretanto, isso não pode valer quando a empresa recebe dinheiro público, ou seja, de todos nós para se estabelecer uma determinada localidade. Este é o caso da fábrica da Doublexx que ao se instalar em Horizontina recebeu forte proteção pública. O município pagou durante os dois anos, a energia elétrica da fábrica, fez adequações nas instalações, bancou o transporte das trabalhadoras, entre outros benefícios. Obrigações que seriam da empresa, e que nenhum outro empreendedor do município recebe do executivo.
   Não o bastante, o governo municipal foi além. Rasgou o projeto do Berçário Industrial, proposta referendada pela comunidade quando da elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED), para transformá-lo num pavilhão exclusivo da Doublexx, o qual nem chegará a ser utilizado. Outra omissão - ou conivência do governo municipal - diz respeito à manutenção dos benefícios mesmo que, há um ano, a empresa não mais cumpra integralmente com seus compromissos trabalhistas.
    A Doublexx não deu e não vai dar explicações. Nem há como obrigá-la a isso. Entretanto, cabe ao governo municipal explicar como concede incentivos à uma empresa sem as devidas garantias de sua permanência em atividade? Terá de explicar ainda por que concede incentivos a quem vem de fora e não cria um programa de fomento às empresas locais?
    Talvez a explicação esteja na afirmação de que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pressupõem nossa vã sabedoria”. Aguardemos, ou não.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Saudamos a todos que passam por aqui em 2011

Caros amigos, colegas e companheiros
 
É hora de agradecer a todos e a cada um que de uma forma ou de outra fez parte da minha caminhada profissional, acadêmica e comunitária em 2011.
Sou grato e honrado pela oportunidade de manter contato com cada um de vocês.
 
Agradecemos por 2011 e reiteramos votos de sucesso em 2012.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Inovação, gestão e transpiração: aspectos que desafiam a produção rural

   O agronegócio brasileiro vive um momento extremamente favorável no mercado mundial. E se depender dos números que são apresentados por órgãos de governo e consultorias sobre o futuro, a tendência é que o cenário permaneça bom pelos próximos oito anos. A demanda por alimentos segue crescendo puxado por gigantes como a China e pela inclusão no mercado consumidor de milhões de pessoas sobre tudo na America Latina. Aliás, é daqui também que vai continuar saindo grande parte do que vai alimentar o mundo nos próximos anos.  
   Até 2020 o Brasil será o país com maior crescimento na produção agropecuária mundial, com taxa média anual de 2,7%, ficando à frente da Ucrânia, Rússia e China, com taxa de aproximadamente 1,7%. Os dados são da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) e confirmam o cenário apontado num estudo do ministério que projeta o agronegócio brasileiro para a atual década. Diante do cenário mundial, o Brasil tem tido importante papel, tanto para abastecer o mundo quanto para a melhora da formação de preços. Carnes, trigo, açúcar e queijos estão entre os mais demandados. 
    Ao deparar-se com este cenário, quais são os desafios postos aos produtores rurais que são peça fundamental para a chegada, a manutenção e ampliação do atual patamar da agricultura Brasileira? Certamente são muitos. Aqui vou me ater há alguns, numa abordagem a partir da visão da gestão, área que me cabe como administrador. Um deles, em especial, diz respeito ao uso adequado da tecnologia ou recursos tecnológicos, como queiram. Este tema, aliás, desafia diariamente gestores e profissionais de todas as áreas. 
     Há um apelo natural pelo investimento em novas tecnologias, especialmente no que diz respeito a má-quinas e equipamentos. Há de se convir que incorporar recursos tecnológicos mais modernos é algo que, de certa forma, contempla os anseios de praticamente todos nós. É assim com celulares, carro, eletrodomésticos entre outros. Mas diferentemente das aquisições pessoais as quais atendem muito mais a satisfações de tê-los do que a relação custo-benefício (e não há nenhum problema em assim ser), quando tratamos de negócios, isso deve ser visto de outro ângulo. 
     Antes de investir em novas tecnologias é importante fazer algumas perguntas: as máquinas e equipamentos que temos hoje estão na sua capacidade máxima? Eles estão realmente ultrapassados? Um novo equipamento vai melhor minha produtividade e rentabilidade? Quanto será o meu ganho com o uso desta nova tecnologia? Para isso, antes é preciso já ter respondido outras questões. Quanto custa? Qual minha capacidade de pagamento? Em quanto tempo a aquisição será paga? Que custos terei para mantê-lo em funcionamento? Além de outras questões pertinentes a cada negócio. 
    No caso da agricultura, assim como em outros negócios, é preciso considerar que vivemos uma busca pelo que é considerado moderno, muitas vezes baseado em subjetividades. Outro equívoco na área agrícola é desconsiderar a complexidade da gestão e focar apenas ao que tecnicamente parece vantajoso, geralmente visto sob a ótica de quem cujo negócio é justamente vender novas tecnologias. Tomar decisões bem planejadas e com pleno conhecimento dos riscos e benefícios que trarão é algo que precisa ser imensamente valorizado pelo produtor (empreendedor rural). 
    Neste sentido, torna-se cada vez mais necessário ao produtor, formação e conhecimento na área da gestão. Além de dominar a técnica (recursos matérias, equipamentos e manejo) é preciso entender de gestão, ter conhecimento de mercado e tendências da cadeia ao qual está inserido. Qualificar-se é algo que precisa ser buscado pelo principal interessado que o próprio produto, mas não pode ser entendido como responsabilidade exclusiva deste. As universidades, as cooperativas, os sindicatos, as associações, o setor público nas esferas municipal, estadual e federal, todos devem trabalhar para isso. 
      Há iniciativas louváveis e importantes neste sentido. Mas o histórico descaso brasileiro com a educação e a formação ao longo de 500 anos, reflete em todas as áreas e revela grandes desafios. Porém, todos superáveis. Basta tomarmos as decisões corretas. Estamos no rumo certo, mas nunca é demais aperfeiçoarmos o caminho. Inovação, gestão e transpiração: talvez uma “receita” que pode ajudar a consolidar o Brasil com potência na produção de alimentos. Sou apaixonado pela ideia!  



sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A cooperação para uma nova revolução

   Espalhado pelo mundo, o cooperativismo conta hoje com cerca de 1 milhão de cooperativas e atende mais de 3 bilhões de pessoas ao redor do planeta, sustentado por princípios como a democracia e a paz social. No Brasil, o modelo serve de passagem para o meio produtivo e de acesso a bens de consumo e serviços a milhares de pessoas. Energia elétrica rural e infraestrutura para produção agrícola, em muitos lugares só passaram a existir pela formação de cooperativas.
    Na região as cooperativas estão presentes em praticamente todos os setores. Produção, serviços, cultura, eletrificação rural, de crédito, consumo, etc. Um mosaico de iniciativas bem sucedidas. A partir da primeira experiência de cooperativismo em solo gaúcho em 1902, em Nova Petrópolis, na Serra, a região Noroeste talvez seja a mais fértil em cooperativismo no estado nos últimos 40 ou 50 anos. Foi por meio delas que consolidamos a produção de soja, milho e trigo a partir de meados da década de 1960.   
  Na atualidade as cooperativas devem enfrentar desafios que limitam o desenvolvimento das comunidades. Um desses desafios continua sendo o da organização da produção de forma a garantir a geração de trabalho e renda seja no meio urbano ou rural. Especificamente em nossa região, as cooperativas devem servir de âncora para transformação pela qual deve passar produção agrícola nas pequenas propriedades que compõem as zonas rurais dos nossos municípios.
    O recém criado Departamento da Agricultura Familiar (DAF) da Cotrimaio – ao mesmo tempo em que parece contraditório já que a cooperativa é formada por agricultores familiares – é sinal da adaptação das cooperativas agrícolas para o momento atual. O cooperativismo é um dos caminhos – senão o mais apropriado – para a consolidação de setores como o das pequenas agroindústrias, produção de hortaliças e frutas, flores, entre outros. Estamos na emergência de um novo modelo de produção agrícola nas pequenas propriedades no qual as cooperativas são fundamentais.
    A possibilidade de produção em pequenas unidades produtivas instaladas no meio rural, gerando trabalho e renda, depende muito mais do que a capacidade empreendedora de cada um. Passa pela organização de uma estrutura de distribuição e comercialização do que é produzido para atender ao mercado consumidor, abastecendo o com estes produtos. É justamente este um dos pontos onde só a organização coletiva, baseada em relações qualificadas pode criar as condições para a viabilidade plena deste novo modelo. O cooperativismo na sua essência parece ser o caminho mais adequado.
    Além disso, pela sua vocação de educação e capacitação, as cooperativas podem desempenhar um papel fundamental na qualificação dos produtores. Os princípios do cooperativismo podem nortear uma nova revolução para as pequenas propriedades. Este muito mais verde, amarelo e sustentável. 

Meu artigo publicado na Revista Afinal de Três de Maio no mês de julho. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O desafio da gestão

 Há algum tempo, as atribuições do produtor rural dependia basicamente de saber fazer bem feitas as atividades inerentes diretamente à produção. Ou seja, a época certa de plantar, cuidar o ataque de insetos, inços e doenças, alimentar os animais, manter a propriedade organizada, tirar o leite enfim, cuidar da produção propriamente dita. Estas atividades continuam sendo um desafio diário e de suma importância para a manutenção das propriedades. Ocorre que para tocar uma propriedade não basta apenas isso. É preciso ser um gestor.
   Conceitualmente, entende-se por gestão ou administração o ato de gerir recursos humanos, financeiros e materiais, de forma a alcançar determinados resultados. Uma definição que em princípio parece simples revela sua complexidade quando nos deparamos com a prática diária da gestão. Nisso, qualquer atividade, agrícola ou não-agrícola, são muito parecidas. Estes desafios vão desde fechar as contas no fim do mês, utilizar da melhor forma possível os recursos materiais disponíveis, até o de manter as pessoas motivadas, algo cada vez mais enfatizado nas organizações atualmente.  
    Apliquemos isso à prática de uma propriedade rural. O produtor precisa fazer tudo o que ele já fazia antes, ou seja, produzir. Porém, precisa mais. Imaginamos um produtor de leite: ele necessita manter uma planilha mínima de custos, de produção geral e por animal, e da receita mensal gerada. Precisa manter-se informado sobre o que tem de novo em sistemas de ordenha, de alimentação do gado, de criação da terneira, do mercado de lácteos, etc. Deve ainda ser a inspiração para que seus filhos sintam-se encorajados a pelo menos acreditar que viver de uma pequena propriedade é possível.
   É um desafio e tanto para qualquer pessoa por mais preparada que seja. Como mostram estudos realizados com produtores, a grande parte é formada por uma geração que teve pouca oportunidade estudar. Alias, criou-se uma ideia de que quem estuda não pode ser agricultor. Soma-se a isto as profundas mudanças ocorridas no mundo pós segunda guerra mundial, como a formação de grandes aglomerados urbanos e as transformações econômicas. Diante disso, mantêm-se inda conceitos pré-estabelecidos como verdades absolutas, numa época em que já foram superados.
    Há sim muitas propriedades que estão em dificuldades por conta da política macroeconômica, mas há também muitas que não evoluem por falta de capacidade de gestão. Ações devem ser dirigidas por cooperativas, sindicatos e governos no sentido de oferecer suporte a gestão das propriedades. Neste aspecto, é preciso unir a experiência dos mais velhos e a “conexão” dos mais jovens e enfrentar dois desafios ao mesmo tempo: qualificar a gestão e renovar o comando das propriedades.
    Acreditemos que isso é possível. Pois o mundo não está pior. Ele está apenas diferente. Este é o segredo para superar os desafios contemporâneos.




quarta-feira, 23 de março de 2011

O desenvolvimento precisa de articulação regional

   Ao circular pela região Noroeste do RS encontram-se iniciativas que visam o desenvolvimento em praticamente todos os municípios, independente de aspectos demográficos e da linha ideológica de quem está no governo local. Iniciativas – umas mais, outras menos ousadas – buscam unir forças e recursos, e atrair investimentos que possibilitem o tão sonhado desenvolvimento. Capaz de possibilitar melhor nível de emprego, renda e melhor qualidade de vida para a população. Todas as iniciativas pelo simples fato de existirem já merecem ser reconhecidas, ainda que sem discutir o mérito pontual de sua eficácia ou não.
   Numa visão mais ampla, faz-se necessário avaliar a real possibilidade de um município, isoladamente, atingir níveis elevados nos índices que medem o desenvolvimento de uma localidade, sem que sejam empreendidas políticas microrregionais. Ao observar experiências ao redor do mundo, e exemplos aqui mesmo no Brasil, percebe-se que dificilmente um município alcança elevado grau de desenvolvimento de forma isolada, sem que, pelo menos, a microrregião em que está inserido caminhe no mesmo sentido.
   O desenvolvimento é algo que precisa ser articulado de formar integrada inter e intrarregionalmente. Esta necessidade de articulação regional dá-se especialmente pelo fato dos municípios rurais carecerem de uma economia diversificada e que seja capaz de agregar valor ao que produz. Na maioria dos municípios da região o espaço territorial é relativamente pequeno e as propriedades rurais tem características minifundiárias. Por essa razão também, é que é preciso desenvolver atividades que otimizem a divisão do trabalho e a capacidade operacional de cada unidade produtiva das cadeias, numa perspectiva regional.
   Esta articulação regional serve para que as políticas públicas e as ações privadas sejam orientadas de forma a otimizar o que já existe como atividade econômica na região, ou seja, integrar os setores primário, secundário e terciário. Por exemplo, se um município tem vocação para indústria e ao seu redor há produção de leite é sensato que se busque desenvolver o beneficiamento de leite. O mesmo ocorre com outras cadeias. Não há como dissociar as atividades agrícolas das não-agrícolas, de maneira que não é possível falar em agricultura sem mencionar as máquinas, os fertilizantes, os defensivos, as agroindústrias e todas as demais atividades não-agrícolas.    
   Atuação articulada regionalmente só acontecerá de fato quando os governos municipais tiverem vontade política para isso. O primeiro passo é deixar que “olhar para o próprio umbigo” e pensar o município como parte de um todo que precisa ser visto como tal. Políticas públicas, freqüentemente se revelam ineficazes por serem imediatistas e não levarem em conta as potencialidades locais e regionais. É preciso vontade política e competência para encarar os desafios e encontrar as respostas práticas para nossas mazelas.   



segunda-feira, 7 de março de 2011

Activia: o funcional que revolucionou o mercado

    Que o Activia é um fenômeno de venda ninguém tem dúvida. O iogurte vendido como alimento funcional por sua capacidade de melhorar o funcionamento digestivo, em especial do intestino, ganhou lugar cativo nos carrinhos de supermercados das consumidoras brasileiras. Mas o que nem todos sabem é que o Activia é responsável por uma mudança no mercado de iogurtes que vai além da venda do próprio produto, mas do mercado como um todo. Hoje no Brasil consome-se 50% mais de iogurte do que era consumido antes da linha ser lançada.  
    Quando da Danone lançou a Activia em 2004, o brasileiro consumia cerca de quatro quilos de iogurte ao ano. Na época, o produto focado em mulheres e com apelo funcional deu uma turbinada no mercado e ajudou o consumo anual per capita subir aos atuais 6,4 quilos. Ocorreu que os benefícios oferecidos pela marca elevaram as vendas de todos os iogurtes, já que, as características benéficas a saúde são inerentes aos iogurtes de modo geral. Talvez a grande sacada da Danone não seja o fato de ter desenvolvido um produto com maior (ou não) capacidade de oferecer benefícios aos consumidores, mas a ideia de apostar no “beneficio prático” como forma de promoção do produto.
    Não cabe aqui estabelecer qualquer tipo de análise se há ou não diferenças funcionais entre uma marca e outro, ou uma linha e outra de iogurtes, mas de chamar a atenção para a forma com que as marcas são posicionadas no mercado. O consumidor não adquire um produto em si, mas os benefícios que possa usufruir da sua utilização. Desse modo, os consumidores passaram a ver os iogurtes (e o Activia, em especial) não com um alimento com seus aspectos físicos, mas sim por seus atributos funcionais. Na verdade, os consumidores não compram o iogurte propriamente dito, mas a possibilidade de melhor o funcionamento do seu organismo. Ou seja, o beneficio. Assim acontece com todas as demais aquisições que fizemos todos os dias de nossas vidas.
   Agora, a Danone quer revolucionar o mercado mais uma vez. Chega aos supermercados no dia 17 de março o Densia com a expectativa de aumentar em 50% o consumo per capita de iogurtes do brasileiro. A Densia promete suprir metade das necessidades diárias de cálcio com apenas um potinho do produto. Se as expectativas da Danone se confirmarem, o consumo no Brasil deve chegar próximo dos 10 quilos por habitante ao ano. Na Argentina o consumo de iogurtes já de 15 quilos por pessoa por ano. Veremos.