O encerramento das atividades da fábrica de calçados da Doublexx em Horizontina é o desfecho infelizmente previsto desde o anúncio recheado de pompa e garganteio por parte do governo municipal em fevereiro de 2010. À época ao fazer o alerta e discordar da forma com que o governo incentiva quem vem explorar e não apóia quem investe de fato no município, cheguei a ser criticado de que estava sendo contra o desenvolvimento. Hoje desafio alguém a sustentar argumento neste sentido.
Sem pagar salários, sem recolher integralmente o Fundo de Garantia Por Tempo de Serviço (FGTS), e sem dar explicações, a direção da empresa simplesmente anuncia que não pode manter as atividades, e que precisa capitalizar-se. Deixa mais de 100 trabalhadoras desempregadas e desiludidas pela promessa de emprego fixo, sonho que milhões de brasileiros puderam realizar na última década. Não fez nada daquilo que pregou-se no passado.
Toda a empresa tem o direito de encerrar suas atividades total ou parcialmente sempre que seus sócios entenderem que tais negócios não atendem mais suas expectativas de lucro. Entretanto, isso não pode valer quando a empresa recebe dinheiro público, ou seja, de todos nós para se estabelecer uma determinada localidade. Este é o caso da fábrica da Doublexx que ao se instalar em Horizontina recebeu forte proteção pública. O município pagou durante os dois anos, a energia elétrica da fábrica, fez adequações nas instalações, bancou o transporte das trabalhadoras, entre outros benefícios. Obrigações que seriam da empresa, e que nenhum outro empreendedor do município recebe do executivo.
Não o bastante, o governo municipal foi além. Rasgou o projeto do Berçário Industrial, proposta referendada pela comunidade quando da elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento (PED), para transformá-lo num pavilhão exclusivo da Doublexx, o qual nem chegará a ser utilizado. Outra omissão - ou conivência do governo municipal - diz respeito à manutenção dos benefícios mesmo que, há um ano, a empresa não mais cumpra integralmente com seus compromissos trabalhistas.
A Doublexx não deu e não vai dar explicações. Nem há como obrigá-la a isso. Entretanto, cabe ao governo municipal explicar como concede incentivos à uma empresa sem as devidas garantias de sua permanência em atividade? Terá de explicar ainda por que concede incentivos a quem vem de fora e não cria um programa de fomento às empresas locais?
Talvez a explicação esteja na afirmação de que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pressupõem nossa vã sabedoria”. Aguardemos, ou não.
